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Me explica Clarisse: Por que tantas mentiras? Tantas coisas que escondemos de
nós mesmo?
- Já olhou para
as mulheres da sala? Elas são pobres, não conseguem ver longe por que só
carregam a intenção de descaso com o mundo.
- Pobres mulheres...
- Melhor ser taxado
de louco.
- Melhor ser
um inconveniente social, causar
desconforto do que ser submetida a sua própria mentira.
- Sou a Leoparda, querida. Uma grande e terrível Leoparda, urgindo em
cima dos corpos mortos e dessecados, horrorizando.
- Não quero mais miar, quero urgir. Ter a subjetividade infinita da sua
alma.
- Cada um tem a subjetividade que merece. Não suportaria a de outro.
Mais tarde talvez, depois das quatro da manhã quando o sol começa a aparecer e
faz o mundo se retorcer, todas as certezas morrerem, deixa morrer. Ao fazê-lo
aprende que a morte é o nascer do sol, e a subjetividade da humanidade
será sua.
- Acolha-me em seu colo, por favor! Cubra-me com suas vestes negras e
vermelhas, cuida-me como filha, viva em min' alma. Suplico, proteja meus olhos
desse sol!
- Não! Não queira que eu seja sua mãe. Você é que deve fazê-lo! Não
queira a minha subjetividade, minhas ideias, minha poesia. Você deve buscar seu
caminho como busca o gozo durante o sexo, como buscava o peito da sua mãe
quando criança, como quando corre ao estar encurralada. Você deve ser voraz.
E já que se preocupa com a mentira que nós falamos para si mesmos... Faça
diferente e não minta a si. Não mande que os outros lutem! Lute você
mesma!
- Meus olhos ardem.
- Seja forte para chorar.
- Minhas mãos queimam.
- Seja forte para pegar a brasa.
- Meus ouvidos tem o zunido da mosca.
- Seja forte para ouvir o que ela tem a dizer, mesmo que isso leve horas
.
- Desejo o útero profundo materno. Desejo volver as tripas de minha mãe.
Sinto-me desamparada e opaca.
- Seja forte: deseje mais, deseje volver ao seu próprio útero e comer a
própria placenta, mesmo que ela tenha um odor desagradável.
- Clarice me explica essa dor? Esse sentimento sem sentido. Me
explica.
- Seja forte o bastante para provar a si mesma que é capaz de se
convencer de qualquer coisa. Deixe morrer.
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