segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Deixe morrer


- Me explica Clarisse: Por que tantas mentiras? Tantas coisas que escondemos de nós mesmo?

- Já olhou para as mulheres da sala? Elas são pobres, não conseguem ver longe por que só carregam a intenção de descaso com o mundo.

- Pobres mulheres...

- Melhor ser taxado de louco.

- Melhor ser um inconveniente social, causar desconforto do que ser submetida a sua própria mentira. 

- Sou a Leoparda, querida. Uma grande e terrível Leoparda, urgindo em cima dos corpos mortos e dessecados, horrorizando. 

- Não quero mais miar, quero urgir. Ter a subjetividade infinita da sua alma. 

- Cada um tem a subjetividade que merece. Não suportaria a de outro. Mais tarde talvez, depois das quatro da manhã quando o sol começa a aparecer e faz o mundo se retorcer, todas as certezas morrerem, deixa morrer. Ao fazê-lo aprende que a morte é o nascer do sol, e a subjetividade da humanidade será sua. 

- Acolha-me em seu colo, por favor! Cubra-me com suas vestes negras e vermelhas, cuida-me como filha, viva em min' alma. Suplico, proteja meus olhos desse sol! 

- Não! Não queira que eu seja sua mãe. Você é que deve fazê-lo! Não queira a minha subjetividade, minhas ideias, minha poesia. Você deve buscar seu caminho como busca o gozo durante o sexo, como buscava o peito da sua mãe quando criança, como quando corre ao estar encurralada. Você deve ser voraz.  E já que se preocupa com a mentira que nós falamos para si mesmos... Faça diferente e não minta a si. Não mande que os outros lutem! Lute você mesma! 

- Meus olhos ardem. 

- Seja forte para chorar. 

- Minhas mãos queimam. 

- Seja forte para pegar a brasa. 

- Meus ouvidos tem o zunido da mosca. 

- Seja forte para ouvir o que ela tem a dizer, mesmo que isso leve horas . 

- Desejo o útero profundo materno. Desejo volver as tripas de minha mãe. Sinto-me desamparada e opaca. 

- Seja forte: deseje mais, deseje volver ao seu próprio útero e comer a própria placenta, mesmo que ela tenha um odor desagradável. 

- Clarice me explica essa dor? Esse sentimento sem sentido. Me explica. 

- Seja forte o bastante para provar a si mesma que é capaz de se convencer de qualquer coisa. Deixe morrer. 















quarta-feira, 18 de julho de 2012

Muito além do fim

Olha Clarice,
O fim da estrada!
Olha e depois volta
Vamos dormir mais um pouco
Vamos sonhar com o retorno
Escutar as melodias
Fazer silêncio para cantar
Entender a realidade Clarice
A realidade!
Eu quero o seu psicologismo
Sua falta de tempo
Inacessibilidade da falta de realidade concreta 


Corre Clarice! 
Me ama 
Mama a ferida do eu 
Encara o fim da estrada 
O carro vindo 
O corpo no chão 
Mas volta, diz, diz que volta de pressa

Com força, sem meta,

Seus sonhos diversos, singelos cassando meus olhos secos, estas tantas palavras e amores sublimes... 

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Entreato


O sentimento que quero
Saí, caí, quebra, fala
Tem a ver com o movimento
Com o partir, o parir
Tem a ver com liberdade que se dá ao corpo
A liberdade... Essa tal cheia de reticências...
O seu corpo, forte e bonito, feio e sombrio, grande e mestiço
Seu corpo, fosse como fosse, se esfregando no meu.
Falando da liberdade da libertinagem mais poética
Os braços fortes que carregam
A respiração ofegante
O desejo se abrindo na volúpia dos movimentos
Fazendo a ação antropofágica que come o homem
Cobrindo o outro de terra, sangue, suor, ar, mar...
Os braços e suspiros, todos em um movimento único.
 Todo o mundo em um só movimento, nossos corpos
Estendendo a mobilidade da sensação pecante
Que na verdade não tem nada de mais
Coisa que só produz sentimento fresco
Fricção, ação... EMOÇÃO

terça-feira, 1 de maio de 2012

Cativa-me


Escute só, acho que as pessoas precisam ler o Pequeno Príncipe e pensar sobre ser responsável pelo que cativa.
Ah sei que isso transparece minha falta de atenção, como sou mimada. Nasci assim sem beira, até mesmo sem rumo ou prumo.
 Cadê você que me escuta tão calado? Cadê você que eu escuto com tanta paixão só para tentar descobrir todo o brilho da sua alma?
Olha, queria cantar o Eu te amo baixinho e aquietar minha voz. Mas nem sei cantar.
Deixa que eu me lembre do futuro sem segurar em uma bolsa vermelha no centro fedido da cidade. Eu ria no centro, ainda está lá. Estamos quietos, corremos, depois nos olhamos nos olhos para saber o preço astronáutico do seu ingresso, meus cabelos que já tão ouriçados ficaram perturbados. Se jogaram no chão e dormiram por lá. Eu nem queria. Você sabe que eles têm uma vontade só deles, dessa que não tem nada a ver com as nossas vontades.
Escute, fique quieto e saiba da fusão das moléculas dos gases mais perturbados por seus sonhos. Saiba que a sabedoria dos gases é a mesma que rege os relacionamentos humanos, se você coloca-los juntos em um mesmo ambiente irão exercer pressão um no outro, brigarão pela energia que os fazem em movimento continuo.  Leia a frase... Não! Leia o paragrafo. Não... não leia nada, só me escute pedindo mais atenção e aconchego:  Você é responsável, INTRASFERIVELMENTE, responsável pelo oque cativa.
Ah faça um esforço, grite um pouco mais. Vamos! Grite! Libere toda a energia de convencimento que me convence que é sentimento e não só carne.  Não me olhe com esses olhos, saiba que falo apenas o que penso e por pensar muito deixo de falar tudo por falta de tempo.
Agora vou calar.



Nunca mais digo uma só palavra, nunca mais pronuncio essa frase sobre o pensador e o destino. Que morram todos, vamos morrer! Precisamos de flores, caixões e sepulturas, rápido, rápido... Antes que todos morram e não sobre quem para carregar todas essas coisas.
Agora todos se deitam dentro dos seus caixões, fechem os olhos e mentalizem seus coração de pedra, detrito, fumaça e carvão transformando-se no nada através dos sentimentos. Ora, gritem! Não sentem a dor?
Você! Não deite-se. Sou rancorosa como qualquer escorpião e acredito que quero seus seis corações em um ensopado cheio de molho vermelho. Cale-se, mas fale nos meus ouvidos sobre a vida não ser assim tão complicada.
Vamos! Agora o jantar já tá quase pronto.   A mesa está posta e todos estão se esforçando para fazer a transformação do século, quando levantarem serão melhores.  E nós, tenha certeza, que seremos sempre quem somos, mas com todas as mudanças que o mundo traz.
Bota rápido sua cabeça na minha barriga. Ei, rápido, corre que os barulhos do mundo estão se desfazendo. Depois escorregue e sinta meu prazer em sua boca.
Rápido! Estou com muita fome de você, de mim. Estou tirando meus corações também, colocarei cada um devagar para complementar nosso prato. Estamos dentro, vendo fora.
Meu corpo passa longe do seu, não venha. Se afaste agora, sentarei do outro lado da mesa para que você não me cative, para que eu não te cative. Seremos só esta refeição nutritiva. Saiba usar o vinho a seu favor, pois ele me faz esquecer. Posso te jurar amor, mas não te amarei, por que você não cuida do que cativa e isso é terrível. Nem percebe como agonizo com todos eles transformando seus corações e eu aqui a olhar para os nossos postos a mesa, prontos para serem deflagrados pelos anjos mortos.
Não quero mais comer.
Quero só ouvir o não bater de pedra dos corações, dos cérebros menos mármore. Eles estão transmutando e sei que no final vão levantar com suas flores póstumas e se amarão com muita velocidade em um movimento erótico que só nos poderemos ver, pois não temos mais corações e não podemos participar.
Vamos nos matar, rápido! Antes tragam os cães para devorarem nossos corações.
 Ah não faz sentido! A morte acaba com as possibilidade do ser ou não ser.
Não seremos, seremos mortos e reavivaremos por nossas esperanças espirituais de jovens tontos. Pronto! Você me mata e eu te mato. Certo? Não, não responda. Cala-se. Beija-me tão rápido quando puder.
Matar-te-ei pela garganta e você fará o mesmo a mim. Jurar-te-ei amor eterno e não mais acordarei. 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sobre o tempo

- Onde estava?

- Por aí, a procura de qualquer morte parcial para dobrar minha realidade.

- Não gaste tempo com isso querida. Passe mais tempo aqui comigo, por que me evitou nos últimos tempos?

- Não te evitei ...

- Sim, me evitou, te conheço muito bem querida . Vou ascender meu cigarro.

- Começou!

- Você tem problemas com a fumaça mas não diz diretamente, nunca diz diretamente o que quer se encobre de algum mistério cheio de nebulosidades e esconde a real verdade de si mesma.

- Ahh... Não é por que lamento todo a minha existência de vez em quando que isso queira dizer que não sinto o real sentimento, que me questiono qual o porque da minha lamentação.

- Você lamenta por que acha que toda essa crosta de inexistência que te cerca também é você.

- Como assim?

- Não entende que precisamos sempre mudar tudo, tudo que pensamos ! Não devemos estar parados no tempo.

- Por que?

- Por que o tempo não para. O tempo é o instante-já que me engole , deforma e reforma ao seu sabor, que me modifica e faz gritar e por isso não posso ir contra ela de nenhuma forma, não posso negar-lhe me fazer voar rapidamente pois é ele que me dá asas para qualquer evolução.

- Acho que a lição de hoje foi muito forte, preciso digerir... Tchau

- Só não vá vomitar ... Tchau

domingo, 8 de maio de 2011

Voo contido

- Onde estava?
- Ah, fui sair, aqui acaba sendo o último refugio mesmo... Fui ver um balé.
- Ficou tudo muito silêncioso de repente. Gosta tanto assim de apreciar a arte?
- Gosto. Acho que a arte transcende o que o autor quer dizer, a sua expressão... Acho que a arte é livre, me silêncio para tentar entende-la por completo.
- Silêncio... Tá vendo ? E você que disse que não conseguia escutar o silêncio. Está começando a voar só. Não me deixe ainda, certo?
- Certo... Você foi mãe?
- Sim.
- Feliz dia das mães!
- Obrigada. Depois quero falar-te sobre mães... Mas ainda não é o momento.
- Gosto do seu sorriso. Seu riso é natural, parece que nem sentes quando saí. Quando via fotos sua era sempre tão séria.
- Com o cigarro na mão e um rosto de avidez.
- É mesmo... emblemática e liberta...
- Oh, sabes como a liberdade me consome... não fale dela por enquanto.
- Mas não estamos a voar para uma liberdade?
- Não, não podemos coloca-la como um objetivo, um fim... é tão natural quanto meu riso, é o caminho que percorremos, quando vemos ela está disposta dentro de nós. Como um fluído que escorre e te consome, te liberta. Os medos, as coragens, os dias e as noites passam e ela se torna o caminho que nos faz seguir.
- Hum...
- Não a force, ela virá. A liberdade é a causa e a conseqüência ao mesmo tempo, é cada fibra que temos dentro do coração e por mais que queiramos pegá-las podem ser mortais pois irá fazer seu coração parar. Apesar disso, podemos senti-lo bater... Mas tenha sempre ânsia por ela, pois é perigoso deixá-la passar sem sequer entender de onde vem. É também mortal, se o coração parar.
- Perigoso?
- Sim. Quero uma valsa.
- Por que ?
- Ora! Vou-me então!
- Clarice? Você tá aí? Clarice?

sábado, 7 de maio de 2011

Cores e silêncio

Eu: Eu sei que está tarde... mas vim te ver, desculpe-me
Ela: Não se desculpe, sei que não consegue dormir. Fique à vontade, se sente comigo. Quer beber alguma coisa?
Eu: Não, muito obrigada. Podemos voar agora?
Ela: Podemos sim. Espere... Primeiro escute.
Eu: O que?
Ela: O silêncio... Shiii



Eu: Mas o silêncio é tão alvo que não consigo escutá-lo
Ela: Tente, se não, não conseguiremos voar.


Ela: Então consegue ouvir a música?
Eu: Talvez... Me diga quando poderemos voar.
Ela: Já estamos a fazê-lo.
Eu: Consigo ouvir uma valsinha.
Ela: Sim...Sim... Qual é a cor?
Eu: Roxa, amarela... Espera... Acho que azul, agora é verde... Parou!
Ela: Uma hora teríamos de calar completamente. Nossas verdadeiras cores só aparecem quando calamos.
Eu: E a liberdade?
Ela: A liberdade é o efeito, o último refugio, a isenção de tudo, o devir... A água que escorre continua na fonte.
Eu: A liberdade é um movimento?
Ela: Sim.
Eu: Ora se me liberto o que...
Ela: De onde vem os ecos dos domingos?
Eu: Por que sempre me interrompe?
Ela: Porque não voa continuamente, insiste em pousar e decolar a todo momento.
Eu: Desculpe-me. Sabe que ainda não sei voar como tu.
Ela: Posso ascender um cigarro?
Eu: Sim.
Ela: Você já se perguntou sobre deus?
Eu: Já sim.
Ela: Não te apavora como somos pequenos? E as borboletas?
Eu: Sim. Mas o que posso fazer se sou assim e não posso mudar meu tamanho. E o que tem a ver as borboletas?
Ela: Pode sim. Por que insiste em pousar?
Eu: Sabe como é difícil para eu te fazer?
Ela: Sei. Mas não sei porque quer deixar tudo tão claro, se quando me evoca precisa buscar dentro de si a mais perigosa escuridão.
Eu: Escuridão?
Ela: Sei tanto de você... e você sabe tão pouco de mim... ou mesmo de você mesma...
Eu: Preciso ir, sua fumaça está me causando mal.
Ela: Vá, mas não se esqueça das cores e do silêncio.