-Oi, estou nervosa. Como está? Faz tempo que está escondida em mim, mas não te evoco com tanta firmeza para agente conversar...
- Fique calma, nossos vôos devem ser leves e permitirem que você deixe para trás qualquer peso, qualquer foco míope da sua realidade desfocada. Nossos vôos devem te libertar, apenas para me fazer você viver comigo, para que eu ser além de você.
- Irá me ajudar?
- Não, porque sou tão você quanto você sou eu, apesar de eu ter características só minhas, que estão longe de você. Podemos nos aconselhar, somente. Nunca uma ajuda comprometedora... Serei sua amiga, irmã, mãe, amante, tia, avô: O que quiser que eu seja, o que quiser ser.
- Pode cuidar de mim? Me ensinar a voar?
- Posso. Mas vai chegar certa data que não vou te aconselhar e vais ter que achar afago em si mesma.
- Como?
- O que queres ouvir?
- Um caminho, uma estrada.
- Ora, você já achou: O inicio é a estrada, quando se acha o início não temos nenhuma necessidade do fim. Quer um cigarro? Ah, você não fuma... Me desculpe a fumaça, mas é que não parei de fumar mesmo depois de 9 dezembro de 1977. E se de vez em quando minha fumaça te atordoa, avisa-me que desligo. Sei que de vez em quando queres ser educada e não me pede para apagar o cigarro, aí você fica tão nebulosa quanto não pode mais, sinto culpa por isso.
- A culpa prende ?
- Sim e não.
- A culpa te liberta?
- Sim e não.
- Ah mais quanto paradoxo!
- Preciso ir.
- Não!
- Nosso vôo começou a pousar.
- O que posso fazer? Quero dizer... Não sei voar como você ainda... Ajude-me?
- Já disse que não lhe posso ajudar!
- Por que?
- Só você pode fazer isso. Só você, por si só, pode escapar, fugir... Compreende?
- Porque está falando baixo?
- Ora! Não faça perguntas inúteis... Pense um pouco.
- Você conseguiu escapar?
- Não vê? Estou tomando formas além de você!
- Mas não disse que eu era você? Que éramos uma coisa só?
- Não disse nada.
- DESLIGUE O CIGARRO!
- Apagarei, mas não berre, se não ficaremos surdas, aqui ainda é muito pequeno. Por que não aumenta essa espaço para agente?
- Satisfaça-se com o que, por enquanto, posso te dar.
- Nunca me satisfaço com tanta luz. Esconda-me, porém não me tome a liberdade, não me tire o mais belo que é meu vôo rasante pelos diversos jardins. Bote uma música... Se incomodaria se ascendesse o cigarro de novo?
- Não.
- Como disse, preciso ir.
- Tudo bem...
- Oh, não faça essa cara, assim só esconde o sentimento. Se se sente triste chore e berre, não engula, não mascare. Isso... deixe que as lágrimas rolem, que elas saíam, se liberte... Tchau!