sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sobre o tempo

- Onde estava?

- Por aí, a procura de qualquer morte parcial para dobrar minha realidade.

- Não gaste tempo com isso querida. Passe mais tempo aqui comigo, por que me evitou nos últimos tempos?

- Não te evitei ...

- Sim, me evitou, te conheço muito bem querida . Vou ascender meu cigarro.

- Começou!

- Você tem problemas com a fumaça mas não diz diretamente, nunca diz diretamente o que quer se encobre de algum mistério cheio de nebulosidades e esconde a real verdade de si mesma.

- Ahh... Não é por que lamento todo a minha existência de vez em quando que isso queira dizer que não sinto o real sentimento, que me questiono qual o porque da minha lamentação.

- Você lamenta por que acha que toda essa crosta de inexistência que te cerca também é você.

- Como assim?

- Não entende que precisamos sempre mudar tudo, tudo que pensamos ! Não devemos estar parados no tempo.

- Por que?

- Por que o tempo não para. O tempo é o instante-já que me engole , deforma e reforma ao seu sabor, que me modifica e faz gritar e por isso não posso ir contra ela de nenhuma forma, não posso negar-lhe me fazer voar rapidamente pois é ele que me dá asas para qualquer evolução.

- Acho que a lição de hoje foi muito forte, preciso digerir... Tchau

- Só não vá vomitar ... Tchau

domingo, 8 de maio de 2011

Voo contido

- Onde estava?
- Ah, fui sair, aqui acaba sendo o último refugio mesmo... Fui ver um balé.
- Ficou tudo muito silêncioso de repente. Gosta tanto assim de apreciar a arte?
- Gosto. Acho que a arte transcende o que o autor quer dizer, a sua expressão... Acho que a arte é livre, me silêncio para tentar entende-la por completo.
- Silêncio... Tá vendo ? E você que disse que não conseguia escutar o silêncio. Está começando a voar só. Não me deixe ainda, certo?
- Certo... Você foi mãe?
- Sim.
- Feliz dia das mães!
- Obrigada. Depois quero falar-te sobre mães... Mas ainda não é o momento.
- Gosto do seu sorriso. Seu riso é natural, parece que nem sentes quando saí. Quando via fotos sua era sempre tão séria.
- Com o cigarro na mão e um rosto de avidez.
- É mesmo... emblemática e liberta...
- Oh, sabes como a liberdade me consome... não fale dela por enquanto.
- Mas não estamos a voar para uma liberdade?
- Não, não podemos coloca-la como um objetivo, um fim... é tão natural quanto meu riso, é o caminho que percorremos, quando vemos ela está disposta dentro de nós. Como um fluído que escorre e te consome, te liberta. Os medos, as coragens, os dias e as noites passam e ela se torna o caminho que nos faz seguir.
- Hum...
- Não a force, ela virá. A liberdade é a causa e a conseqüência ao mesmo tempo, é cada fibra que temos dentro do coração e por mais que queiramos pegá-las podem ser mortais pois irá fazer seu coração parar. Apesar disso, podemos senti-lo bater... Mas tenha sempre ânsia por ela, pois é perigoso deixá-la passar sem sequer entender de onde vem. É também mortal, se o coração parar.
- Perigoso?
- Sim. Quero uma valsa.
- Por que ?
- Ora! Vou-me então!
- Clarice? Você tá aí? Clarice?

sábado, 7 de maio de 2011

Cores e silêncio

Eu: Eu sei que está tarde... mas vim te ver, desculpe-me
Ela: Não se desculpe, sei que não consegue dormir. Fique à vontade, se sente comigo. Quer beber alguma coisa?
Eu: Não, muito obrigada. Podemos voar agora?
Ela: Podemos sim. Espere... Primeiro escute.
Eu: O que?
Ela: O silêncio... Shiii



Eu: Mas o silêncio é tão alvo que não consigo escutá-lo
Ela: Tente, se não, não conseguiremos voar.


Ela: Então consegue ouvir a música?
Eu: Talvez... Me diga quando poderemos voar.
Ela: Já estamos a fazê-lo.
Eu: Consigo ouvir uma valsinha.
Ela: Sim...Sim... Qual é a cor?
Eu: Roxa, amarela... Espera... Acho que azul, agora é verde... Parou!
Ela: Uma hora teríamos de calar completamente. Nossas verdadeiras cores só aparecem quando calamos.
Eu: E a liberdade?
Ela: A liberdade é o efeito, o último refugio, a isenção de tudo, o devir... A água que escorre continua na fonte.
Eu: A liberdade é um movimento?
Ela: Sim.
Eu: Ora se me liberto o que...
Ela: De onde vem os ecos dos domingos?
Eu: Por que sempre me interrompe?
Ela: Porque não voa continuamente, insiste em pousar e decolar a todo momento.
Eu: Desculpe-me. Sabe que ainda não sei voar como tu.
Ela: Posso ascender um cigarro?
Eu: Sim.
Ela: Você já se perguntou sobre deus?
Eu: Já sim.
Ela: Não te apavora como somos pequenos? E as borboletas?
Eu: Sim. Mas o que posso fazer se sou assim e não posso mudar meu tamanho. E o que tem a ver as borboletas?
Ela: Pode sim. Por que insiste em pousar?
Eu: Sabe como é difícil para eu te fazer?
Ela: Sei. Mas não sei porque quer deixar tudo tão claro, se quando me evoca precisa buscar dentro de si a mais perigosa escuridão.
Eu: Escuridão?
Ela: Sei tanto de você... e você sabe tão pouco de mim... ou mesmo de você mesma...
Eu: Preciso ir, sua fumaça está me causando mal.
Ela: Vá, mas não se esqueça das cores e do silêncio.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Primeiro encontro

-Oi, estou nervosa. Como está? Faz tempo que está escondida em mim, mas não te evoco com tanta firmeza para agente conversar...
- Fique calma, nossos vôos devem ser leves e permitirem que você deixe para trás qualquer peso, qualquer foco míope da sua realidade desfocada. Nossos vôos devem te libertar, apenas para me fazer você viver comigo, para que eu ser além de você.
- Irá me ajudar?
- Não, porque sou tão você quanto você sou eu, apesar de eu ter características só minhas, que estão longe de você. Podemos nos aconselhar, somente. Nunca uma ajuda comprometedora... Serei sua amiga, irmã, mãe, amante, tia, avô: O que quiser que eu seja, o que quiser ser.
- Pode cuidar de mim? Me ensinar a voar?
- Posso. Mas vai chegar certa data que não vou te aconselhar e vais ter que achar afago em si mesma.
- Como?
- O que queres ouvir?
- Um caminho, uma estrada.
- Ora, você já achou: O inicio é a estrada, quando se acha o início não temos nenhuma necessidade do fim. Quer um cigarro? Ah, você não fuma... Me desculpe a fumaça, mas é que não parei de fumar mesmo depois de 9 dezembro de 1977. E se de vez em quando minha fumaça te atordoa, avisa-me que desligo. Sei que de vez em quando queres ser educada e não me pede para apagar o cigarro, aí você fica tão nebulosa quanto não pode mais, sinto culpa por isso.
- A culpa prende ?
- Sim e não.
- A culpa te liberta?
- Sim e não.
- Ah mais quanto paradoxo!
- Preciso ir.
- Não!
- Nosso vôo começou a pousar.
- O que posso fazer? Quero dizer... Não sei voar como você ainda... Ajude-me?
- Já disse que não lhe posso ajudar!
- Por que?
- Só você pode fazer isso. Só você, por si só, pode escapar, fugir... Compreende?
- Porque está falando baixo?
- Ora! Não faça perguntas inúteis... Pense um pouco.
- Você conseguiu escapar?
- Não vê? Estou tomando formas além de você!
- Mas não disse que eu era você? Que éramos uma coisa só?
- Não disse nada.
- DESLIGUE O CIGARRO!
- Apagarei, mas não berre, se não ficaremos surdas, aqui ainda é muito pequeno. Por que não aumenta essa espaço para agente?
- Satisfaça-se com o que, por enquanto, posso te dar.
- Nunca me satisfaço com tanta luz. Esconda-me, porém não me tome a liberdade, não me tire o mais belo que é meu vôo rasante pelos diversos jardins. Bote uma música... Se incomodaria se ascendesse o cigarro de novo?
- Não.
- Como disse, preciso ir.
- Tudo bem...
- Oh, não faça essa cara, assim só esconde o sentimento. Se se sente triste chore e berre, não engula, não mascare. Isso... deixe que as lágrimas rolem, que elas saíam, se liberte... Tchau!