sábado, 7 de maio de 2011

Cores e silêncio

Eu: Eu sei que está tarde... mas vim te ver, desculpe-me
Ela: Não se desculpe, sei que não consegue dormir. Fique à vontade, se sente comigo. Quer beber alguma coisa?
Eu: Não, muito obrigada. Podemos voar agora?
Ela: Podemos sim. Espere... Primeiro escute.
Eu: O que?
Ela: O silêncio... Shiii



Eu: Mas o silêncio é tão alvo que não consigo escutá-lo
Ela: Tente, se não, não conseguiremos voar.


Ela: Então consegue ouvir a música?
Eu: Talvez... Me diga quando poderemos voar.
Ela: Já estamos a fazê-lo.
Eu: Consigo ouvir uma valsinha.
Ela: Sim...Sim... Qual é a cor?
Eu: Roxa, amarela... Espera... Acho que azul, agora é verde... Parou!
Ela: Uma hora teríamos de calar completamente. Nossas verdadeiras cores só aparecem quando calamos.
Eu: E a liberdade?
Ela: A liberdade é o efeito, o último refugio, a isenção de tudo, o devir... A água que escorre continua na fonte.
Eu: A liberdade é um movimento?
Ela: Sim.
Eu: Ora se me liberto o que...
Ela: De onde vem os ecos dos domingos?
Eu: Por que sempre me interrompe?
Ela: Porque não voa continuamente, insiste em pousar e decolar a todo momento.
Eu: Desculpe-me. Sabe que ainda não sei voar como tu.
Ela: Posso ascender um cigarro?
Eu: Sim.
Ela: Você já se perguntou sobre deus?
Eu: Já sim.
Ela: Não te apavora como somos pequenos? E as borboletas?
Eu: Sim. Mas o que posso fazer se sou assim e não posso mudar meu tamanho. E o que tem a ver as borboletas?
Ela: Pode sim. Por que insiste em pousar?
Eu: Sabe como é difícil para eu te fazer?
Ela: Sei. Mas não sei porque quer deixar tudo tão claro, se quando me evoca precisa buscar dentro de si a mais perigosa escuridão.
Eu: Escuridão?
Ela: Sei tanto de você... e você sabe tão pouco de mim... ou mesmo de você mesma...
Eu: Preciso ir, sua fumaça está me causando mal.
Ela: Vá, mas não se esqueça das cores e do silêncio.

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